Entenda como a lógica do desempenho invade trabalho e descanso, reconheça sinais precoces de esgotamento e recoloque produtividade no lugar certo – como ferramenta, não como medida de valor.
A palavra performance nunca esteve tão presente. Ela aparece no trabalho, nas redes sociais, na forma como organizamos nossa rotina e, gradualmente, vai se atravessando para lugares que antes eram de descanso, prazer e espontaneidade.
Estamos em um momento em que “ser produtivo” virou quase uma identidade. Trabalhar até tarde, estar sempre disponível, dar conta de tudo e ainda mostrar resultados passou a ser sinônimo de valor. Mas, com isso, surge uma pergunta importante: a serviço de quem (ou do quê) estamos colocando a nossa melhor performance?
Aqui, você vai encontrar reflexões (e provocações) sobre a relação que criamos com a performance. Afinal, quando ela deixa de ser uma ferramenta e vira uma cobrança implacável, o custo pode ser a nossa própria espontaneidade. Vivemos exaustos tentando performar uma perfeição que não existe, sacrificando o descanso e o ócio criativo em nome de uma produtividade que nunca parece ser suficiente.
O que é performance?
Performance é um termo que reúne ideias como atuação, desempenho, execução e comportamento.

E o que será que essas palavras têm em comum?
Seja no palco de um teatro, na entrega de um projeto, na superação de uma meta física ou na forma como nos posicionamos em uma conversa, a performance é o “comportamento sublinhado”. É o momento em que deixamos de apenas ser para passarmos a fazer algo que será observado, medido ou sentido.
Talvez por isso, nos últimos anos, a performance tenha ganhado uma forma cada vez mais concreta: os números. Relógios como o Apple Watch, aplicativos de habit tracker, redes sociais de corrida como o Strava ou até a lógica do aplicativo gymrats ajudam a acompanhar passos, treinos, sono, produtividade e constância. Tudo pode ser registrado, comparado e compartilhado.
Em si, essas ferramentas não são o problema. Elas podem ser motivadoras, criativas e até prazerosas. A questão começa quando o desempenho deixa de ser um meio e passa a se tornar seu padrão – ou, pior, quando vira a principal régua de valor pessoal.
Antes de seguir, vale se perguntar: como o contexto em que vivemos colabora para que isso aconteça?
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A cultura do desempenho e a perda de limite
Hoje, a cultura do desempenho, infelizmente, não fica restrita apenas ao expediente de trabalho. Ela tem permeado todas as áreas da vida.
Muitos de nós aprendemos a acelerar, a empurrar, a produzir, mas fomos raramente ensinados a reduzir as marchas ou pisar no freio quando necessário. O esgotamento muitas vezes não nasce do excesso pontual de esforço, mas sim da falta de limite.
Quando tudo é mensurado, é comum que a atenção se volte mais para os números do que para o processo. Contamos tarefas, respostas, entregas, metas cumpridas e checks no planner, enquanto coisas menos visíveis – como criatividade, relações e reflexão – vão sendo deixadas de lado.
E talvez exista uma ironia nisso tudo: quanto mais ferramentas de produtividade temos, mais cansados nos sentimos, sem necessariamente melhorar a qualidade do que fazemos. Estranho, né?
Até o descanso virou performance
Talvez nem tudo tenha virado performance, mas é difícil negar que essa lógica tem atravessado até os espaços que antes eram reservados ao descanso. O lazer deixou de ser sobre não fazer nada e passou a ser sobre “aproveitar bem”: ler os livros certos, acompanhar as séries do momento ou viver experiências que parecem valer mais quando podem ser mostradas.
Não estamos trabalhando, mas seguimos com a mesma dinâmica de trabalho. Áudios do WhatsApp e séries de TV são consumidos em velocidade dupla, hobbies são monetizados e fenômenos como o FOMO (medo de ficar de fora) ganham força. Uma cultura que glorifica estar sempre ocupado começa a se consolidar: a cultura da correria.
Vivemos sobrecarregados de estímulos – e isso pode ser frustrante. Assim, não apenas o trabalho, mas também o lazer pode levar à sensação de exaustão.
Quando a performance vira armadilha
O sinal de alerta costuma aparecer quando a produtividade deixa de servir ao que é importante para a gente (incluindo as partes chatas da responsabilidade) e começa a ser guiada por ansiedade, culpa ou comparação.
Muitas pessoas entram em um estado de monitoramento constante: tudo o que não foi feito vira um peso mental, e descansar provoca culpa. Surge uma sensação quase constante de estar sempre devendo algo – mesmo quando muita coisa já foi feita.
E esse cenário pode se manifestar em sinais como:
- insônia
- irritabilidade
- ansiedade fora do usual
- cansaço constante
- dificuldade de se desconectar.
A pessoa se torna produtiva, mas se sente cronicamente improdutiva, porque as métricas nunca parecem suficientes. E isso é um sinal importante de alerta, que a gente pode acabar ignorando.
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Performance saudável, na prática
Cuidar da relação com a performance não significa abandonar metas ou responsabilidades, e sim reconectar produtividade e propósito.
Israa Nasir, psicoterapeuta, escritora e palestrante paquistanesa-canadense, é autora do livro Toxic Productivity: Reclaim Your Time and Emotional Energy in a World That Always Demands More (Produtividade Tóxica), no qual descreve o ciclo em que o valor próprio passa a depender de conquistas constantes. Ela propõe quatro pilares para colocar essa reconexão em prática:
- Avaliar compromissos: o que realmente merece meu tempo e energia?
- Estabelecer limites: até onde estou agindo por mim — ou para atender expectativas alheias? Parte da produtividade tóxica vem da urgência alheia, que absorvemos sem filtrar. Isso acontece muito no ambiente corporativo, onde confundimos agilidade com disponibilidade total. Isso corrói limites pessoais. Muitas vezes os limites são atravessados não por maldade, mas por padrões culturais de hiperdisponibilidade
- Atuar com intenção: esta tarefa está conectada com meus valores ou é apenas uma resposta automática?
- Criar espaço livre: momentos sem estímulos são essenciais para o cérebro descansar, integrar e criar. O ócio não é o oposto da produtividade; muitas vezes, é o que a torna possível.
No fim das contas: o que guia você?
Por fim, vale ampliar um pouco mais esse olhar: a produtividade tóxica não nasce apenas da quantidade de tarefas ou das pressões externas; muitas vezes, ela se alimenta também das relações que mantemos e do tipo de disponibilidade que normalizamos no dia a dia.
Revisar com quem compartilhamos nosso tempo – e para onde vai a nossa energia emocional – é um passo direto para desacelerar com mais consciência. Relações desalinhadas com nossos valores podem nos colocar no piloto automático com ainda mais força do que uma agenda lotada.
No fim, valores não são enfeites nem frases bonitas: são critérios práticos de escolha. E quando eles viram bússola, a performance volta ao lugar certo – como ferramenta, não como medida de valor.
Esperamos que tenha feito sentido por aí,




