"A relação terapêutica é em si mesma um agente de cura."
Irvin Yalom, psiquiatra e psicoterapeutaDecidir fazer terapia é o primeiro passo. Encontrar o terapeuta certo é o segundo — e ele exige tanto cuidado quanto o primeiro.
Pra te ajudar nessa escolha, convidamos a terapeuta Bianca Goes, que vai apontar outros sinais importantes além da abordagem — esses detalhes que fazem toda a diferença na hora de decidir.
A abordagem importa, mas será que é tudo?
O que a ciência diz sobre o que realmente faz a terapia funcionar
A abordagem é importante: é a partir dela que o terapeuta estrutura todo o tratamento. Mas o que a pesquisa em psicoterapia vem mostrando é que ela responde por apenas uma parte do resultado — o restante depende de outros fatores tão decisivos quanto.
Nas últimas décadas, várias pesquisas descobriram algo interessante: existem fatores que se repetem em todas as abordagens de terapia e que fazem muita diferença no resultado. E um dos mais importantes é a qualidade da relação entre terapeuta e paciente — o que chamamos de vínculo terapêutico.
Em outras palavras: duas pessoas podem fazer terapia com a mesma abordagem e obter resultados muito diferentes. Muitas vezes, a diferença não está na técnica utilizada, mas na qualidade da conexão construída ao longo do processo. Quando existe confiança, colaboração e sensação de segurança, o paciente tende a se abrir mais, se engajar nas propostas terapêuticas e permanecer no tratamento pelo tempo necessário.
Já quando essa relação não se estabelece, mesmo uma abordagem reconhecida e eficaz pode ter resultados limitados.
Escolher um terapeuta não é apenas escolher uma linha teórica. É também encontrar alguém com quem seja possível construir uma relação que favoreça o crescimento e a mudança. No fim das contas, você não escolhe só uma abordagem. Você escolhe uma pessoa: com seu jeito, suas características e a forma como ela se relaciona com você.
O que é o vínculo terapêutico, afinal?
O vínculo terapêutico é a segurança de saber que existe alguém genuinamente interessado em te entender — sem julgamentos e sem respostas prontas. É também a sensação de que você e o terapeuta estão caminhando juntos, com um objetivo em comum e claro para os dois.
Alguns sinais de que esse vínculo existe:
Você não precisa convencer o terapeuta do que sente. Não precisa performar, parecer mais forte ou mais "resolvido" do que está.
Existe espaço para a confiança crescer. Aos poucos, você se sente seguro(a) para falar sobre coisas que talvez nunca tenha contado a ninguém.
Existe respeito e colaboração. A relação é de parceria — vocês dois trabalhando juntos para entender o que está acontecendo e buscar caminhos possíveis.
A terapia "encaixa". Não significa que toda sessão seja confortável ou que não existam momentos difíceis. Significa que, mesmo nos momentos difíceis, você se sente compreendido(a) e acompanhado(a) de verdade.
O vínculo terapêutico não é um detalhe do processo — ele é o contexto dentro do qual toda técnica e toda intervenção acontecem. Sem ele, mesmo a abordagem mais consagrada perde força.
Pra entender melhor essa diferença, os pesquisadores Gelso e Carter (1994) explicam dois conceitos que, juntos, formam a terapia:
Relação terapêutica
São os sentimentos e atitudes que terapeuta e paciente têm um pelo outro, e a forma como eles são expressados.
Gelso e Carter (1994)Técnica
São as ferramentas que o terapeuta usa para conduzir o tratamento e promover a mudança.
Gelso e Carter (1994)O que observar nas primeiras sessões
Perguntas para avaliar as primeiras sessões
Quem está começando terapia costuma acreditar que precisa avaliar apenas o conhecimento técnico do profissional. Mas existem outros sinais mais subjetivos que vale a pena você avaliar. Ao final das primeiras sessões, responda a estas 5 perguntas:
Eu me senti ouvido ou apenas entrevistado?
Senti que havia interesse genuíno na minha história?
Consegui falar com relativa liberdade, mesmo sobre assuntos difíceis?
Saí da sessão com a sensação de ter sido compreendido?
Percebi abertura para discordar ou trazer dúvidas?
A relação terapêutica começa a ser construída desde o primeiro contato. O tom da conversa, a disponibilidade para ouvir, a curiosidade genuína e a ausência de julgamentos costumam ser percebidos pelo paciente muito antes de qualquer técnica específica ser aplicada.
Sinais de que algo pode não estar funcionando
Vamos alinhar um ponto importante aqui: fazer terapia é desconfortável e isso, muitas vezes, é sinal de que a terapia está funcionando. Então, nem todo desconforto em terapia é um sinal de que algo está errado.
Às vezes, o processo terapêutico envolve justamente entrar em contato com temas difíceis, questionar padrões antigos ou olhar para aspectos da própria vida que foram evitados por muito tempo. Esse tipo de desconforto costuma ser doloroso, mas também vem acompanhado da sensação de que existe algo importante sendo trabalhado. Mas existem situações em que o desconforto parece ter outra origem.
Você pode perceber, por exemplo, que evita falar sobre determinados assuntos porque sente que não será compreendido. Ou que sai das sessões com a sensação recorrente de não ter sido ouvido. Algumas pessoas relatam sentir que precisam se explicar o tempo todo, se defender ou adaptar o que dizem para caber na forma como o terapeuta enxerga a situação.
Outro sinal importante é quando existe um afastamento progressivo do processo. Você sente vontade de faltar com frequência (e muitas vezes até falta de fato), perde o interesse pelas sessões ou passa a responder automaticamente que "está tudo bem", mesmo percebendo internamente que algo precisaria de atenção.
Isso não significa necessariamente que o terapeuta seja inadequado ou que a terapia precise terminar. Toda relação significativa atravessa momentos de tensão. O mais importante é que exista espaço para conversar sobre isso. Muitas vezes, falar abertamente sobre a sensação de desconexão fortalece o vínculo e se torna uma oportunidade valiosa de crescimento. Mas, quando essa sensação persiste ao longo do tempo e não encontra espaço para ser trabalhada, pode ser importante reconsiderar se aquela relação terapêutica é a mais adequada para você.
Além da técnica: a pessoa por trás do terapeuta
Presença, escuta e o que não está no currículo
Quando pensamos em escolher um terapeuta, é natural olhar primeiro para formação, especialização e abordagem teórica. Tudo isso importa, claro. Mas existe uma parte essencial do terapeuta que nenhum currículo é capaz de mostrar: suas características pessoais e humanas.
Listo abaixo as 7 que considero mais importantes:
Escuta verdadeira
A capacidade de realmente ouvir o que você diz — não apenas esperar a vez de responder.
Presença sem pressa
Estar ali, no momento, sem a urgência de corrigir, interpretar ou oferecer respostas antes da hora.
Interesse genuíno
Curiosidade real por entender a sua experiência, do jeito que ela é — não como ela "deveria" ser.
Flexibilidade
Capacidade de adaptar a terapia ao seu perfil e suas necessidades, sem perder a qualidade técnica pelo caminho.
Empatia ativa
Não só sentir junto, mas perceber o que você precisa, mesmo quando você não sabe nomear.
Humildade
Abertura para receber feedback e reconhecer quando algo precisa ajustar.
Visão multidisciplinar. Saber atuar em conjunto com outros profissionais — psiquiatras, neurologistas e afins — quando o cuidado pede mais de uma frente.
Numa boa terapia, você sente que não está sendo reduzido a um diagnóstico, a uma lista de sintomas ou a um protocolo de tratamento. Existe espaço para que sua história, seus valores, seus medos e suas contradições caibam ali, sem pressa de serem "resolvidos". A técnica abre caminhos — mas é a presença humana do terapeuta que faz com que você consiga, de fato, percorrê-los.
→ leia também Amor ou Dependência? Identificando os sinais de um vínculo saudávelSobre mudar de terapeuta — e por que isso não é desistir
Muita gente continua em terapias que já não fazem mais sentido só por sentir culpa diante da ideia de trocar.
Algumas pessoas têm medo de parecer ingratas. Outras temem decepcionar o terapeuta, ou acham que encerrar o processo é admitir um fracasso. Mas trocar de terapeuta não é sinal de desistência — às vezes, é exatamente o contrário: um sinal de que você está comprometido(a) com o seu próprio processo.
Pensa assim: em qualquer relação humana, nem toda combinação entre duas pessoas funciona. E isso não quer dizer que alguém esteja errado — só que aquela relação específica talvez não seja a mais adequada para você naquele momento. Quando essa decisão é tomada com consciência e respeito, ela é simplesmente você exercendo sua autonomia.
Se você está pensando nessa possibilidade, vale conversar abertamente com seu terapeuta sobre isso. Um bom profissional entende que o objetivo da terapia não é manter pacientes a qualquer custo — é ajudar cada pessoa a encontrar as condições certas para crescer.
Muitas vezes, perceber que um vínculo não está funcionando como deveria é um ato de honestidade e profissionalismo. Não de fracasso.
Por fim, algumas perguntas para levar com você
Escolher um terapeuta é, antes de tudo, um ato de autoconhecimento. Envolve saber o que você está buscando, prestar atenção em como você se sente dentro daquele espaço e confiar na sua própria percepção — mesmo quando ela ainda está se construindo.
Não existe fórmula perfeita. Mas fazer as perguntas certas já é um bom começo, mesmo que as respostas não venham de imediato. Por isso, vale parar um instante e se perguntar:
Nessa relação, eu consigo ser quem eu sou?
Eu me sinto verdadeiramente compreendido(a) pelo meu terapeuta?
O que eu espero encontrar nessa relação?
Fica com essas perguntinhas e com o tempo que precisar pra pensar nelas.
Espero que esse texto tenha feito sentido por aí ❤️
Com carinho, Bianca