Por Jéssika Moraes, Nutricionista (CRN 1/29592)
As canetas emagrecedoras ganharam as redes. Mas o que esperamos que mude quando emagrecemos? Um olhar sobre pressão estética e caminhos para cuidar da própria imagem.
Quando foi a última vez que você se sentiu bem com o seu corpo sem pensar em como ele poderia ser depois de emagrecer? Com a popularidade das canetas emagrecedoras, essa pergunta ficou ainda mais presente.
Às vezes, condicionamos nosso bem-estar a uma mudança futura: usar determinada roupa, tirar mais fotos, receber elogios ou nos sentir mais confiantes. É nesse cenário que as canetas ganharam espaço e ampliaram as conversas sobre peso, aparência e autoestima.
Neste texto, vamos entender o que ajuda a explicar essa popularidade, como as expectativas sobre o emagrecimento podem afetar a imagem corporal e quais cuidados são importantes ao considerar esse tipo de tratamento.
O que explica a popularidade das canetas emagrecedoras?
Medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro ganharam visibilidade por seus usos clínicos e também pelos relatos de emagrecimento que circularam nas redes sociais. Vídeos de antes e depois e depoimentos sobre transformações corporais alimentam o interesse pelo assunto.
Esse interesse acontece em uma sociedade que valoriza determinados padrões estéticos e costuma associar a magreza à beleza, à disciplina e ao sucesso. Quando essas mensagens aparecem o tempo todo, podemos começar a enxergar a mudança corporal como o caminho para conquistar aceitação e confiança. E a promessa de resultados rápidos ganha ainda mais força numa rotina em que queremos soluções imediatas para tudo.

Por que associamos emagrecimento a bem-estar?
Aprendemos, desde cedo, que determinados corpos são mais valorizados socialmente. Quem não corresponde ao padrão pode enfrentar comentários, julgamentos e discriminação por causa do peso.
Por isso, o desejo de emagrecer nem sempre envolve apenas a aparência ou a saúde. Ele também pode carregar a expectativa de ser mais aceito, se sentir mais seguro ou deixar de se preocupar tanto com o olhar dos outros.
Querer emagrecer não é, por si só, um problema. Mas vale observar o que esperamos que mude quando chegarmos a determinado peso.
O que você espera sentir quando atingir a sua meta?
E quais dessas mudanças poderiam começar antes disso?
Quais são os limites das canetas emagrecedoras quando o assunto é imagem corporal?
Ozempic, Wegovy e Mounjaro têm indicações e características diferentes. Quando prescritos para as condições adequadas, podem fazer parte de um tratamento importante. A decisão de usá-los deve considerar o histórico de saúde, os benefícios esperados e os possíveis riscos, sempre com acompanhamento médico.
Como perceber quando a busca pelo emagrecimento começa a ocupar espaço demais na vida?
Essa pergunta não tem uma resposta pronta. Às vezes, o desejo de emagrecer se torna tão automático que nem percebemos o quanto ele afeta nosso dia a dia. A vida não fica em pausa até que estejamos satisfeitas com o nosso corpo. Vestir uma roupa, tirar uma foto e aceitar um convite podem fazer parte da vida de agora, mesmo quando queremos mudar o corpo.
Sem lista de sintomas nem autodiagnóstico, apenas algumas perguntas honestas:
- Os pensamentos sobre peso e aparência influenciam onde vou, com quem saio e o que visto?
- Minhas refeições vêm acompanhadas de culpa, medo ou regras rígidas?
- Estou adiando roupas, encontros, fotos e viagens até ter "outro corpo"?
Se alguma dessas perguntas fez sentido para você, pode ser um convite para olhar para essa relação com mais carinho. E, se a comida ou o corpo têm sido fonte de muito sofrimento, buscar o apoio de profissionais de nutrição e de psicologia pode fazer diferença.
Como a nutrição comportamental pode ajudar a construir uma relação mais cuidadosa com a comida e com o corpo?
A nutrição comportamental olha para além dos nutrientes e das calorias que estão no prato. A pergunta não é só "o que você come?", mas também "por que" e "como" você come. A abordagem parte de uma compreensão biopsicossocial da pessoa e, em vez de entregar uma lista do que pode e do que não pode, constrói junto com ela uma relação mais leve com a comida e com o corpo.
Na prática, isso passa por alguns pilares:
Reconhecer a fome e a saciedade, perceber quando a vontade de comer vem do estresse, do tédio, da ansiedade ou do cansaço, e buscar outras formas de se acolher.
Sem rotular alimentos como "bons" ou "ruins", entendendo como incluir diferentes alimentos em vez de só excluir.
O ciclo de dietas restritivas e efeito sanfona dá lugar a hábitos duradouros e flexíveis, com autonomia para fazer escolhas alimentares conscientes.
Prestar atenção ao que se come, perceber os pensamentos que atrapalham e construir uma relação com a comida com menos culpa e rigidez.
Menos fixação no número da balança, mesmo durante o emagrecimento, e sem usar a atividade física como compensação pelo que comeu.
Isso também vale para quem usa ou pretende usar canetas emagrecedoras. O medicamento pode fazer parte do tratamento, mas não substitui o cuidado com a relação com a comida e com o corpo. Construir hábitos que façam sentido para você é importante durante o tratamento e também a longo prazo.
Esse caminho pode ser frustrante quando esperamos resultados para ontem. Mas respeitar o processo, em vez de buscar apenas soluções rápidas, também é uma forma de autocuidado.
No acompanhamento nutricional, é comum encontrar pessoas — principalmente mulheres — que chegam com urgência para emagrecer e muita atenção aos números da balança e ao percentual de gordura.
Às vezes, basta a balança mostrar um número diferente do esperado para mudar a forma como alguém enxerga o próprio corpo. O corpo continua o mesmo, mas a percepção sobre ele muda. Em outros casos, mesmo depois de alcançar o peso desejado, surge a sensação de que ainda é preciso emagrecer mais.
Essas situações nos fazem pensar: será que algum número vai ser suficiente?
Não precisamos gostar do nosso corpo o tempo todo, mas podemos aprender a respeitá-lo para além da aparência. Que tal pensar em três coisas que ele te permitiu viver na última semana? Pode ser treinar, abraçar uma amiga ou aproveitar um momento de que você gosta.
Então, por que nunca parece o bastante?
A régua dos corpos está sempre mudando. Quando chegamos a um número, aparece outro menor; sempre existe uma foto ou um corpo para nos compararmos. E seguimos correndo atrás de uma linha de chegada que muda de lugar a cada passo.
A felicidade pode caber em qualquer corpo, inclusive no que temos hoje.
A boa notícia é que podemos querer mudar o corpo e, ao mesmo tempo, reconhecer o caminho que já percorremos. E, se as canetas emagrecedoras entrarem na sua vida, que seja como parte do cuidado — e não como a única porta para se sentir bem.

Nutricionista (CRN 1/29592), com atuação em nutrição comportamental. Ajuda pessoas a construírem uma relação mais leve com a comida e com o corpo. @nutri.jessikamoraes



