Katuryn Lara

agosto 30, 2025

Descobertas do processo de Luto

“Poupar-se do luto a todo o custo pode ser conseguido somente com o preço do desapego total, que exclui a possibilidade de experimentar o amor e a felicidade.”  Erich Fromm

A morte é algo que a gente sabe que vai acontecer — mas só entende de verdade quando sente.

Sempre que um vínculo importante se rompe, o luto pode aparecer.

Talvez você já tenha sentido isso:

  • em um término de relacionamento;
  • quando um sonho não se realizou;
  • ao passar por uma mudança que virou sua vida do avesso;
  • diante da perda de alguém;
  • após um diagnóstico que chegou sem aviso;
  • ou ainda no afastamento de alguém que você não queria perder.

O luto aparece onde teve carinho, entrega, expectativa. Onde tinha laço. E quando algo assim vai embora, fica um espaço estranho dentro da gente, né? E é ali que o luto costuma morar.

🧠 Luto e cérebro: entenda o que muda por dentro

O luto pode se manifestar de diversas formas no corpo e na mente, por exemplo:

  • na forma como a gente sente: raiva, culpa, desamparo, euforia, irritação, ressentimento, inveja. 
  • mexendo com a nossa forma de pensar: pode causar esquecimentos, dificuldade de focar, alterações na memória, alucinações auditivas e/ou visuais)
  • na forma como o corpo reage: tensão muscular, dores no peito, falta de ar, alterações no sono e no apetite. O corpo também sente quando a gente perde algo ou alguém.
  • nas mudanças espirituais: Algumas pessoas se afastam da fé. Outras se aproximam de uma nova crença. É comum começar a fazer perguntas que antes não existiam.
  • na forma de estar no mundo: isolamento, dificuldade em manter conversas ou se interessar por coisas que antes faziam sentido. Às vezes, a vontade é só se recolher.

Por que ainda temos medo de falar sobre o luto?

Hoje, muita gente já fala sobre luto com mais abertura, especialmente depois da pandemia. Isso é importante. Falar já é um começo — e precisamos comemorar os espaços que vêm se abrindo.

Mas, ainda assim, o luto continua sendo um tema que assusta, que causa silêncio, que é deixado pra depois.

Muitas vezes, o único lugar onde a pessoa enlutada encontra escuta e acolhimento é na terapia. Fora dali, os espaços continuam difíceis, cheios de frases prontas e olhares que não sabem o que fazer com a dor do outro.

A verdade é que falar sobre morte, perda e luto não deveria ser um assunto só de momentos extremos. A gente precisa trazer esse tema pra vida comum — para os corredores da escola, para as conversas no trabalho, para a formação dos profissionais de saúde, e até para o almoço de domingo em família.

Quanto mais falamos de luto com responsabilidade e carinho, menos espaço damos para o tabu e para os julgamentos que ainda pesam sobre quem está atravessando uma perda.

😠 Sentir raiva no luto é normal?

Sim, e entender isso é o primeiro passo para acolher o que se sente. Tem coisas que a gente sente no luto que parecem erradas. E a raiva, geralmente, é uma das primeiras.

  • Raiva de quem foi embora.
  • Raiva de quem ficou.
  • Raiva do jeito como tudo aconteceu.
  • Raiva do mundo seguir como se nada tivesse mudado.

Um sentimento pode significar muito mais que o óbvio ou com o que estamos acostumados. Muitas certezas vão embora com a perda, o mundo do enlutado muda para sempre, enquanto o mundo externo continua o mesmo, a pessoa se sente injustiçada, sente raiva das pessoas, do que e como aconteceu tudo.

A raiva também é uma forma de dor. É o grito de quem perdeu algo grande e não sabe onde guardar tudo isso que ficou. Ela precisa ser sentida. E precisa ser escutada também.

É assim que, aos poucos, a gente começa a dar forma pra esse novo jeito de viver.

⏳ “O tempo cura tudo”? Não!

Essa é uma das frases mais repetidas quando alguém está em luto. E, ao mesmo tempo, uma das que mais causam desconforto.

Na prática, o tempo não tem esse poder todo. Ele passa, sim — igual pra todo mundo —, mas não significa que a dor vá embora junto. O tempo do luto é diferente do tempo do relógio. Pra quem perdeu alguém, às vezes os dias passam rápido demais, outras vezes parecem não andar. Tem quem diga: “parece que foi ontem”, mesmo depois de anos. E isso faz sentido.

O luto bagunça a nossa noção de tempo porque mexe com tudo. E não existe uma linha de chegada. Não se trata de “curar” o luto como se ele fosse uma doença. Ele é um processo que precisa ser vivido, elaborado, acolhido.

Na clínica, é muito comum ajudar a pessoa enlutada a entender que seu tempo é único — e que tudo bem ser assim. Comparar o seu processo com o de outras pessoas só traz mais culpa e confusão.

O luto não se cura. Ele se transforma com o tempo — mas só quando a gente dá espaço pra sentir, sem pressa e sem pressão.

@falandosobreperdas

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💬 O que falar para alguém que está de luto?

Nem sempre a gente sabe como reagir quando alguém que amamos está passando por uma perda. E tudo bem não saber. O importante é entender que, nessas horas, escutar e estar presente valem mais do que tentar consertar a dor com palavras prontas.
O que não dizer a quem está enlutado:
  • “Ele descansou.”
  • “Foi melhor assim.”
  • “Você precisa ser forte.”
  • “Já passou tempo demais.”
  • “O tempo cura tudo.”

Agora, o que você pode dizer de forma sincera e respeitosa:

  • “Sinto muito pela sua perda.”
  • “Estou aqui, se quiser conversar.”
  • “Não sei o que dizer, mas quero que saiba que você não está sozinho.”
  • “Posso fazer algo por você hoje?”

Não é sobre ter a frase certa. É sobre mostrar que você está disponível, sem pressionar. E lembrar que, às vezes, o simples fato de estar ao lado em silêncio já é um grande apoio.

Por que os rituais ajudam tanto no processo de luto?

Quando a gente perde alguém, tudo muda rápido. E, no meio dessa confusão, os rituais entram como uma forma de dar algum contorno à dor.

Eles ajudam a marcar o que aconteceu. É como se dissessem, com cuidado: “sim, isso foi real, e agora você pode começar a se despedir”.

Cada cultura tem seus próprios rituais. Pode ser um velório, uma cerimônia, uma oração, uma carta, uma lembrança guardada com carinho. O importante não é o formato, e sim o sentido que aquele gesto tem pra quem ficou.

Além de ajudar a pessoa a entender o que aconteceu, os rituais também permitem que a dor seja compartilhada. Mesmo que discretamente, eles dizem: “você não está sozinho nisso”.

Não precisa ser algo grandioso. Às vezes, acender uma vela, colocar uma música, escrever uma carta ou olhar uma foto com calma já é o suficiente pra começar a elaborar a ausência.

Ritual é isso: uma forma simbólica de dar espaço ao que dói — e de começar a cuidar do que ficou.

💭 Em luto agora? Algumas palavras pra você

Você não está sentindo “errado”.
Não existe um jeito certo de viver o luto — existe o seu jeito.

Respeite seu tempo, seus silêncios, sua confusão, sua dor.
Se em algum momento você se perguntar: “Será que tô exagerando?”, lembre que sentir é parte do processo.

E que, mesmo nos dias em que tudo parecer demais, você não precisa passar por isso sozinho.

Terapeutas também precisam falar de luto

É normal sentir medo de tocar nesse tema.
A maioria de nós cresceu sem saber falar sobre perdas — muito menos escutá-las com calma.

Mas o luto vai aparecer no consultório. 

Você não precisa ter todas as respostas. Só precisa estar disposto a escutar com presença e responsabilidade.

Se o luto ainda é um tema que te desafia, comece devagar: estude, converse com colegas, acompanhe profissionais que tratam o assunto com respeito. A escuta sensível se constrói aos poucos — e ela faz toda a diferença.

Falar de morte não é só falar do fim. É falar da vida e de tudo o que a gente precisa cuidar enquanto ela acontece.

Uma publicação compartilhada por Katuryn Lara | Psicóloga Clínica | 🏳️‍🌈 (@falandosobreperdas)

espero que esse texto seja um abraço apertado,

com carinho,

Kat 🤎

Escrito por:

Katuryn Lara

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